A próxima fronteira dos pagamentos não é digital: é circular

A transformação dos meios de pagamento costuma ser associada à digitalização. Pix, carteiras digitais, QR Codes e pagamentos por aproximação mudaram a forma como consumidores e empresas movimentam dinheiro. Mas uma nova discussão começa a ganhar força no setor financeiro: o impacto ambiental da infraestrutura física que sustenta essa revolução tecnológica.

Embora cada vez mais digitais, os pagamentos continuam dependentes de milhões de ativos físicos espalhados pelo mundo. Cartões, terminais de pagamento, chips, baterias, equipamentos de rede e data centers integram uma cadeia complexa que consome recursos naturais, energia e matérias-primas ao longo de todo o seu ciclo de vida.

Segundo o Global E-waste Monitor citado pela ESG Inside, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022 e esse volume pode atingir 82 milhões de toneladas até 2030. O crescimento coloca pressão sobre empresas para repensar não apenas a digitalização dos serviços, mas também a gestão dos equipamentos que tornam essas transações possíveis.

A discussão ganha relevância em um momento de forte expansão do setor. No Brasil, os pagamentos eletrônicos continuam crescendo, impulsionados pelo Pix, pelos cartões e pelos sistemas de pagamento instantâneo. Apenas no primeiro trimestre de 2026, os cartões movimentaram mais de R$ 1,1 trilhão, enquanto os pagamentos por aproximação já representam quase 75% das transações presenciais.

O avanço dos meios digitais ajuda a reduzir a dependência de instrumentos físicos tradicionais, mas não elimina os desafios ambientais. Pelo contrário. O aumento do volume transacional exige mais capacidade de processamento, armazenamento de dados e infraestrutura tecnológica, ampliando a importância de estratégias voltadas à eficiência energética e ao gerenciamento do ciclo de vida dos equipamentos.

É nesse contexto que o conceito de circularidade começa a entrar na agenda das empresas de pagamentos. A proposta vai além da reciclagem. O objetivo é projetar sistemas nos quais cartões, maquininhas e demais equipamentos tenham processos estruturados de recolhimento, reaproveitamento, remanufatura e recuperação de componentes ao final de sua utilização.

A logística reversa das maquininhas de pagamento aparece como um dos exemplos mais concretos dessa transformação. Programas de recolhimento e recondicionamento permitem recuperar peças e materiais que anteriormente seriam descartados, reduzindo a geração de resíduos eletrônicos e prolongando a vida útil dos ativos.

Para empresas ligadas a ITAD, recondicionamento e reciclagem eletrônica, a tendência representa uma oportunidade relevante. O setor financeiro opera uma das maiores bases de equipamentos tecnológicos distribuídos do país, incluindo terminais de pagamento, roteadores, dispositivos de autenticação e infraestrutura de conectividade.

A mudança também acompanha uma transformação regulatória. A Política Nacional de Resíduos Sólidos já estabelece responsabilidades sobre a destinação de equipamentos eletroeletrônicos, enquanto consumidores, investidores e órgãos reguladores aumentam a cobrança por indicadores concretos de sustentabilidade.

À medida que a digitalização avança, cresce a percepção de que inovação financeira e economia circular não são agendas separadas. O desafio para os próximos anos será garantir que a infraestrutura tecnológica responsável por movimentar a economia também seja capaz de reduzir seu impacto ambiental, transformando resíduos em recursos e incorporando a circularidade como parte do próprio modelo de negócios.

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