A Aclara Resources apresentou novos detalhes de seu plano para desenvolver uma cadeia integrada de terras raras pesadas nas Américas, utilizando depósitos minerais localizados no Brasil e no Chile e instalações de processamento nos Estados Unidos.
A estratégia foi detalhada durante um encontro com investidores realizado em 20 de outubro.
A empresa canadense pretende iniciar a produção comercial no segundo semestre de 2028, condicionada à conclusão dos estudos, à construção das instalações e à obtenção dos recursos financeiros necessários.
O projeto busca oferecer uma alternativa às cadeias de fornecimento atualmente concentradas na China.
Entre os materiais prioritários estão disprósio, térbio e ítrio, utilizados em diferentes aplicações industriais e tecnológicas.
Uma cadeia dividida entre três países
A Aclara pretende extrair terras raras de depósitos de argilas iônicas no Brasil e no Chile.
O material será transformado inicialmente em carbonatos de terras raras de alta pureza.
A etapa seguinte ocorrerá em instalações planejadas para o estado norte-americano da Louisiana.
Uma unidade será responsável pela separação dos elementos em óxidos, enquanto outra deverá produzir metais e ligas de alta pureza.
Essa estrutura procura integrar diferentes etapas da cadeia de valor.
A extração mineral, isoladamente, não é suficiente para fornecer materiais adequados à fabricação de componentes industriais.
Terras raras precisam passar por processos de separação e refino que exigem conhecimento técnico e infraestrutura especializada.
A concentração dessas atividades em determinados países constitui uma vulnerabilidade para fabricantes que dependem de abastecimento internacional.
Investimentos e contratos ainda precisam avançar
A Aclara informou ter obtido autorização ambiental relacionada às emissões atmosféricas para sua instalação na Louisiana.
A empresa também ampliou o escopo do projeto para incluir gadolínio e samário.
No Chile, inaugurou uma instalação demonstrativa destinada ao desenvolvimento e à validação de processos.
Segundo a companhia, os projetos poderão produzir conjuntamente 732 toneladas anuais de terras raras pesadas e leves.
Esse volume representa uma expectativa futura, não produção comercial atual.
A Aclara também informou possuir três acordos de fornecimento com empresas localizadas na União Europeia, nos Estados Unidos e na Ásia.
Os contratos ajudam a demonstrar interesse comercial, mas a empresa ainda precisa concluir etapas de financiamento e construção.
Entre os mecanismos de apoio divulgados estão financiamento de US$ 750 milhões associado ao Export-Import Bank dos Estados Unidos e incentivos fiscais concedidos pela Louisiana.
O valor de financiamento não deve ser confundido com receita já recebida ou com a confirmação de que todas as instalações estão integralmente financiadas.
A relação com a recuperação de eletrônicos
Embora a Aclara esteja desenvolvendo projetos de extração primária, sua expansão interessa à indústria de reciclagem eletrônica.
Os mesmos elementos presentes em determinados depósitos minerais também são utilizados em componentes tecnológicos.
Disprósio e térbio, por exemplo, podem integrar ímãs permanentes empregados em motores e aplicações industriais.
A recuperação desses materiais a partir de equipamentos usados depende de infraestrutura de separação e processamento.
O desenvolvimento de capacidade industrial nas Américas pode, no futuro, criar possibilidades para cadeias que combinem minerais primários e secundários.
Entretanto, a Aclara não anunciou nessa apresentação um programa específico de processamento de resíduos eletrônicos.
A relação com a reciclagem deve ser entendida como uma oportunidade potencial de integração industrial, não como uma atividade já confirmada pela empresa.
O Brasil na disputa por valor agregado
A presença brasileira na estratégia da Aclara demonstra o interesse internacional em depósitos de terras raras da região.
Mas também evidencia uma questão industrial importante.
Se a extração ocorrer no Brasil e as etapas de separação e transformação em metais forem realizadas no exterior, parte relevante do valor agregado permanecerá fora do país.
O desenvolvimento de capacidade nacional de processamento poderia ampliar a participação brasileira na cadeia.
Isso exigiria investimentos, tecnologia e contratos comerciais capazes de sustentar operações especializadas.
A reciclagem de eletrônicos também poderia integrar essa estratégia em longo prazo.
Operadores brasileiros que desmontam equipamentos podem recuperar componentes contendo ímãs permanentes, mas precisam de compradores e refinadores capazes de processá-los.
O avanço de projetos como o da Aclara amplia a discussão sobre a formação de uma cadeia regional de terras raras.
A oportunidade não está apenas na disponibilidade dos minerais. Está na capacidade de transformá-los em produtos industriais e, posteriormente, recuperá-los quando os equipamentos chegam ao fim da vida útil.

Europe







