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Google leva reparabilidade para a fase de design e pressiona indústria a repensar como eletrônicos são construídos

O direito ao reparo está deixando de atuar apenas sobre aquilo que acontece depois que um eletrônico quebra. Na Google, a reparabilidade começa a entrar na própria concepção dos equipamentos, aproximando engenharia de produto e gestão do ciclo de vida.

Steven Nickel, diretor de operações de hardware de consumo da companhia, afirmou à E-Scrap News que a empresa passou a incorporar critérios de reparabilidade desde as primeiras etapas de desenvolvimento. A mudança é relevante porque parte das limitações enfrentadas por oficinas e recondicionadores não pode ser resolvida depois que um produto já está no mercado: cola excessiva, layouts internos complexos e componentes difíceis de remover são decisões tomadas muito antes do lançamento.

O exemplo mais visível é a nova geração do Pixel Watch. Segundo Nickel, o relógio foi projetado para eliminar adesivos em pontos importantes e permitir abertura mais simples. Tela e bateria, justamente dois dos componentes mais sujeitos a substituição ao longo da vida útil, também foram posicionadas para facilitar a troca. Kyle Wiens, CEO da iFixit, classificou o redesenho como um marco entre smartwatches de grandes fabricantes por tornar o produto efetivamente reparável.

A estratégia vai além do desenho físico. A Google mantém parceria com a iFixit para disponibilização de peças e trabalha com redes independentes de assistência técnica. A empresa também defende legislação de right to repair que assegure acesso a componentes, ferramentas e documentação técnica.

A mudança interessa diretamente ao mercado de recondicionamento. Quanto mais simples for substituir bateria, display ou outro componente de desgaste, maior tende a ser a parcela de equipamentos usados que pode permanecer economicamente viável para um segundo ciclo.

Essa lógica modifica também o valor residual do eletrônico. Um aparelho cujo reparo exige horas de trabalho, ferramentas proprietárias ou substituição de vários componentes ao mesmo tempo pode deixar de ser competitivo no mercado secundário mesmo quando grande parte de sua estrutura ainda funciona.

Em produtos desenhados para desmontagem, a conta muda.

Para empresas de trade-in, refurbishers e operadores de ITAD, design deixa de ser um tema distante da operação. Ele interfere na quantidade de ativos que podem voltar ao mercado, no custo de mão de obra, no estoque necessário de componentes e no tempo gasto em cada equipamento.

O avanço também cria pressão competitiva sobre outros fabricantes. À medida que consumidores, reguladores e compradores corporativos passam a observar reparabilidade, durabilidade e disponibilidade de peças, produtos difíceis de manter podem sofrer desvantagem não apenas ambiental, mas econômica.

Na América Latina, essa diferença é particularmente relevante. O custo dos equipamentos novos e o câmbio favorecem ciclos de utilização mais longos e tornam o reparo economicamente importante para consumidores e empresas. Brasil, por exemplo, já possui programas de autorreparo e redes independentes atendidas por grandes fabricantes.

O mercado secundário regional também depende de equipamentos que consigam sobreviver tecnicamente ao primeiro proprietário. Cada barreira criada pelo design reduz o universo de dispositivos aptos ao refurbishment; cada melhoria que facilita desmontagem, troca de bateria ou manutenção pode ampliar esse estoque.

Existe ainda uma consequência para a reciclagem. Mesmo quando o produto não pode mais ser reutilizado integralmente, desmontagem mais simples melhora a possibilidade de recuperar componentes e separar baterias, placas e materiais antes da trituração.

A discussão sobre direito ao reparo entra, assim, em uma nova etapa. Não basta permitir que oficinas tenham acesso a manuais quando o produto já está quebrado. O maior impacto ocorre quando a possibilidade de reparo influencia a maneira como o próprio dispositivo é construído.

Se essa lógica se consolidar entre os grandes fabricantes, o efeito poderá ser sentido por toda a cadeia: manutenção, trade-in, recondicionamento, mercado de peças, ITAD e, finalmente, reciclagem.

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