O mercado global de dispositivos usados já deixou de ser periférico. A IDC projeta crescimento de 5,8% para smartphones de segunda mão em 2026, enquanto os embarques de aparelhos novos devem recuar 13,9%. No Brasil, entretanto, a distância entre potencial e maturidade permanece grande: dados apresentados pela Allied estimaram em 8% a penetração de smartphones usados, contra 27% nos Estados Unidos. Se o País chegasse a 20%, o segmento poderia movimentar cerca de R$10 bilhões.
É justamente nesse espaço entre demanda e profissionalização que Rodrigo Alves construiu a Fixcomm Tecnologia. Há 15 anos à frente da companhia, o executivo acompanhou a transformação do dispositivo usado de problema operacional para ativo econômico. Fundada em 2011 para atender grandes parques corporativos que não encontravam uma estrutura adequada de pós-venda, a empresa avançou para recompra, recondicionamento, revenda e gestão do ciclo de vida. Hoje, a Fixcomm se posiciona como uma plataforma de gestão de ativos tecnológicos e economia circular, reunindo reparo, buyback, comércio de equipamentos e serviços para o mercado B2B.
Para Alves, o principal obstáculo já não está em provar que um aparelho pode ter uma segunda vida.
“Nosso maior concorrente hoje é a falta de informação e o preconceito. Não é o mercado cinza, não é o mercado negro, não é a informalidade. É a falta de conhecimento”, resume o CEO.
Quando o usado passou a ser um ativo
A primeira oportunidade identificada pela Fixcomm surgiu no mercado corporativo. Grandes companhias começavam a acumular milhares de celulares em operação, mas o modelo tradicional de assistência técnica — pensado para o consumidor que chega ao balcão com um aparelho — não atendia empresas com dezenas de reparos semanais, exigências logísticas e processos de faturamento.
Pouco depois, mudanças nos modelos de comodato das operadoras colocaram grandes parques de celulares em circulação. A Fixcomm percebeu que, depois do reparo, existia outra oportunidade: recomprar esses equipamentos.
A lógica era simples: um smartphone poderia ter deixado de servir para determinada empresa por questões de segurança ou atualização de software, mas ainda conservar valor para outro usuário.
Em 2015, quando passou também a vender equipamentos novos, a companhia conectou essas diferentes etapas.
“A gente vende o ativo novo, recompra o parque obsoleto, presta manutenção durante 18 ou 24 meses e depois recompra de novo esses ativos. A gente criou o ciclo mágico”, explica Alves.
Segundo o executivo, a Fixcomm consolidou uma operação relevante de revenda B2B e, em 2022, tornou-se assistência técnica autorizada Samsung para o mercado corporativo. A companhia também ampliou parcerias com outros fabricantes e hoje atua em diferentes etapas da vida útil dos dispositivos.
Essa verticalização antecipa uma discussão que hoje ganha espaço em toda a indústria: o valor de um dispositivo não termina na primeira venda.
Trade-in como motor da segunda vida
O trade-in ocupa posição central nessa nova cadeia porque conecta o primeiro e o segundo ciclo do equipamento. Para o consumidor, reduz o custo do upgrade. Para fabricantes, varejistas e operadoras, ajuda a impulsionar a venda do novo. Para o mercado secundário, cria uma fonte mais previsível de aparelhos.
“O trade-in para a pessoa física é um grande impulsionador do sell-out. Em muitos lançamentos, é o que ajuda a fazer o produto sair”, analisa Alves.
O potencial aumenta conforme os consumidores prolongam o uso dos aparelhos. Segundo a GSMA, o tempo médio de retenção de um celular já chega a cerca de 3,5 anos, contra aproximadamente dois anos uma década atrás. A entidade também aponta que bilhões de dispositivos permanecem inativos em casas e empresas e poderiam retornar à cadeia por meio de reutilização, recondicionamento ou reciclagem.
No Brasil, pesquisa citada pelo Mobile Time mostrou que 24% dos consumidores já trocam de smartphone apenas depois de cinco anos ou mais. Ao mesmo tempo, estimativas apresentadas pela Trocafy apontam que somente cerca de 20% das vendas de usados passam por players estruturados.
A demanda existe. O problema é transformar essa circulação em uma cadeia confiável.
Informalidade ainda limita a escala
Na visão de Alves, compra, venda e reparo de aparelhos usados sempre existiram no Brasil. O que ainda não se consolidou na mesma proporção foi a profissionalização.
“Quando você olha outros mercados, o que faz dar certo é união e profissionalização, uma oficialização da categoria”, comenta.
O executivo estima que celulares, notebooks, desktops e monitores já representavam um potencial de aproximadamente R$10 bilhões no Brasil em 2024 e projeta demanda entre R$30 bilhões e R$35 bilhões em 2030. São estimativas próprias, mas que reforçam a distância percebida entre o tamanho da oportunidade e a participação das operações formalizadas.
“Falta a visão de um grande negócio, de um grande mercado. A adoção do usado sempre existiu; o que falta é normalizar esse mercado”, avalia Rodrigo.
Profissionalizar, porém, exige investimento. Empresas estruturadas precisam manter instalações, técnicos especializados, rastreabilidade, segurança de dados, processos fiscais e certificações. A Fixcomm possui as certificações ISO 9001, 14001, 45001 e, segundo Alves, é a única empresa do segmento a possuir a ISO 59004, voltada à economia circular.
Ao mesmo tempo, essas companhias competem com operações informais que não suportam necessariamente os mesmos custos.
“Para ter certificação, galpão, funcionários e toda essa estrutura, a Fixcomm paga um valor alto. E você compete com quem compra sem nota fiscal e com o mercado cinza. É uma concorrência desleal”, pondera Alves.
Confiança precisa virar parte do produto
A informalidade também afeta a percepção do consumidor.
Ao comprar um recondicionado, surgem dúvidas que praticamente não existem em um aparelho novo: qual é a procedência? A bateria está saudável? Houve troca de componentes? Os dados anteriores foram apagados? Quem responde se algo der errado?
“Cem por cento da responsabilidade é do empresário que atua nesse segmento. O nosso maior desafio é o preconceito, é a falta de confiança”, enfatiza Alves.
A GSMA identifica exatamente esse problema. Embora quase metade dos consumidores pesquisados considere comprar um aparelho recondicionado, questões relacionadas à condição da bateria, testes, garantia e padronização ainda limitam a conversão.
Para Alves, a confiança precisa ser materializada em processos. Na Fixcomm, ele destaca testes, certificação de apagamento de dados, reparo, embalagem e fornecimento de acessórios como parte da experiência oferecida.
“A gente quer entregar o melhor produto para o consumidor. Tem preocupação com embalagem, certificado de apagamento, testes e troca de peças. São iniciativas que ajudam a normalizar o consumo do produto usado”, explica Rodrigo.
Nesse contexto, competir apenas por preço pode reforçar justamente a percepção de risco que o mercado precisa combater.
Quem agregar mais valor fica
À medida que o setor se profissionaliza, cresce também a disputa por quem captura valor nessa segunda vida.
Fabricantes e operadoras estão próximas do momento de upgrade. Varejistas e marketplaces possuem distribuição. Empresas especializadas dominam avaliação, reparo, recondicionamento e remarketing.
Para Alves, fabricantes e operadoras deverão assumir um papel cada vez maior, enquanto empresas que funcionam apenas como intermediárias tendem a perder relevância.
“Alguns players que são meramente intermediários vão desaparecer. Quem agregar mais valor é que vai crescer mais; quem agregar menos valor vai sumir”, projeta.
É nessa direção que a Fixcomm procura avançar, reunindo serviços, compra e venda de ativos, trading e novos dispositivos dentro do mesmo ecossistema. A companhia também prepara uma marca específica de buyback para dialogar com o consumidor final, mantendo a Fixcomm prioritariamente focada no B2B.
Quanto mais etapas a empresa consegue integrar, maior é sua capacidade de preservar valor dentro do ciclo.
O próximo salto será de estrutura
Alves acredita que o mercado latino-americano deve crescer significativamente nos próximos anos, mas condiciona esse avanço a regras, fiscalização e acesso a capital mais adequados.
“Existe muito incentivo de gaveta, de prateleira, que nunca é viável para as empresas do segmento. Precisa existir um modelo de negócio e financiamento incentivado que seja realmente disponível”, analisa.
A sustentabilidade continuará sendo um argumento importante, mas a circularidade só ganhará escala se também fizer sentido econômico. A GSMA estima que o mercado global relacionado a dispositivos circulares e serviços de reparo pode superar US$ 150 bilhões em 2027.
Para Rodrigo, a América Latina se aproxima desse ponto de inflexão. Fabricantes e operadoras devem ampliar programas de recompra, dispositivos recondicionados ganharão espaço nos canais formais e fornecedores especializados precisarão entregar cada vez mais rastreabilidade, qualidade e capacidade operacional.
“O negócio na América Latina tende a ser muito grande e vai despertar o interesse de players globais para vir para cá”, analisa Alves. “Existe uma grande oportunidade global de se apropriar dessa cadeia de valor.”
O potencial está colocado. A demanda também.
O próximo estágio dependerá de transformar aquilo que ainda circula majoritariamente de forma informal em uma indústria na qual procedência, qualidade e valor residual possam ser comprovados.
Nesse mercado, confiança deixa de ser apenas reputação. Passa a ser infraestrutura.
Conheça o Retech Days LATAM
A profissionalização do mercado de dispositivos de segunda vida, os modelos de trade-in e buyback e os caminhos para construir confiança e escala estarão no centro das discussões do Retech Days LATAM, realizado pela Dataxis em São Paulo. Rodrigo Alves, CEO da Fixcomm — patrocinadora Gold do evento — participará do painel “Tecnologia Circular na América Latina: Crescimento, Modelos e Captura de Valor”, que discutirá adoção de recondicionados, modelos de negócio, certificação, valor residual e o papel de OEMs, varejistas, marketplaces e empresas especializadas.
A edição de 2026 acontece em 3 de dezembro. Acesse a programação completa e garanta sua credencial no site oficial do Retech Days LATAM.
Fontes: GSMA, Trocafy, IDC e Mobile Time.
Por: Rachel Soares

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