O crescimento das receitas de fabricantes de computadores já não significa necessariamente aumento proporcional no número de máquinas vendidas. Essa separação começa a produzir consequências para um mercado que depende diretamente dos ciclos de renovação tecnológica das empresas: o ITAD.
Os últimos resultados de Dell e HP mostram grandes clientes corporativos ainda atualizando suas frotas, enquanto consumidores e empresas mais sensíveis a preço prolongam o uso de seus equipamentos.
A Dell reportou receita de US$ 15 bilhões em sua divisão de soluções para clientes no segundo trimestre fiscal, alta de 20% em relação ao ano anterior. A receita comercial chegou a US$ 13,2 bilhões, avanço de 22%.
A HP, entretanto, colocou um contraponto importante sobre volume. A companhia estima que aproximadamente 70% do ciclo de renovação associado ao Windows 11 já esteja concluído e prevê queda de dois dígitos altos nas remessas de PCs durante o segundo semestre do ano.
As duas informações podem coexistir.
Fabricantes conseguem elevar receita vendendo configurações mais sofisticadas, mesmo se o mercado comprar menos unidades. Para empresas responsáveis pelo destino desses computadores alguns anos depois, isso altera a composição do estoque disponível.
A HP informou que PCs preparados para aplicações de inteligência artificial representaram 46% das remessas de Personal Systems em seu trimestre. A expectativa é que essa participação alcance entre 60% e 70% no ano fiscal de 2027.
Isso aponta para máquinas com processadores mais recentes e, frequentemente, configurações superiores de memória e armazenamento.
Para operações de ITAD, o resultado pode ser um mercado com menos equipamentos, porém maior valor médio por ativo.
Essa transformação favorece modelos menos dependentes de volume bruto e mais especializados em recuperação de valor. Um lote de notebooks empresariais premium pode justificar testes mais detalhados, reparos e remarketing individual, enquanto máquinas antigas de entrada frequentemente terminam em recuperação de peças ou reciclagem.
Ao mesmo tempo, aumenta o custo dos erros.
Classificar incorretamente um computador básico de baixo valor gera uma perda limitada. Fazer o mesmo com um workstation ou notebook premium pode destruir uma parcela relevante da margem do lote.
A diferença entre grandes e pequenas empresas também tende a aparecer no mercado secundário.
A Dell afirmou que grandes organizações continuam realizando refresh de suas frotas, enquanto clientes mais sensíveis a custos estendem os ciclos de atualização. Para operadores de ITAD, isso cria dois fluxos diferentes: grandes corporações podem liberar lotes organizados de máquinas relativamente novas; pequenas empresas podem manter seus PCs por mais tempo, entregando-os posteriormente com menor potencial de revenda.
Essa dinâmica é particularmente relevante na América Latina, onde ciclos de uso mais longos são comuns em mercados sensíveis a preço.
Equipamentos corporativos retirados de grandes organizações podem abastecer uma segunda camada de consumidores e pequenas empresas que não precisam da geração mais recente. O recondicionamento permite que máquinas originalmente adquiridas para ambientes empresariais voltem ao mercado com preço inferior ao de equipamentos novos.
Mas essa cadeia depende de qualidade.
À medida que os dispositivos se tornam mais caros, compradores tendem a exigir informações claras sobre condições, bateria, armazenamento e garantia. O simples rótulo de “usado” deixa de ser suficiente para capturar todo o valor residual.
O impacto chega também ao planejamento das empresas de ITAD. Operadores que construíram estruturas para processar grandes quantidades de desktops e notebooks podem precisar rever projeções de volume caso as remessas globais diminuam depois do pico de atualização para Windows 11.
A capacidade instalada talvez tenha que ser utilizada em outras categorias, incluindo dispositivos móveis, servidores e infraestrutura de data centers.
Os próprios resultados da Dell apontam nessa direção. Sua divisão de infraestrutura teve crescimento expressivo, mostrando que parte do investimento tecnológico corporativo está migrando para servidores, redes e capacidade computacional ligada à IA.
O mix futuro de ativos aposentados, portanto, tende a ser diferente do passado.
Por décadas, PCs formaram a base do ITAD. Eles continuarão relevantes, mas uma proporção crescente do valor pode migrar para notebooks premium, equipamentos de IA, servidores e componentes especializados.
Para o mercado secundário latino-americano, isso pode representar uma oportunidade. Menor volume de PCs novos não elimina necessariamente a demanda por tecnologia. Pode, ao contrário, aumentar a importância econômica de prolongar a vida útil dos equipamentos que já existem.

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