A corrida global pela construção de data centers, impulsionada principalmente pela inteligência artificial, está preparando uma segunda onda de crescimento que começa a chamar a atenção do setor de ITAD. Por trás dos bilhões investidos em GPUs, servidores e infraestrutura de alta performance, forma-se um fluxo crescente de equipamentos que precisarão ser descomissionados, avaliados, revendidos, reaproveitados ou reciclados em intervalos muito menores do que os observados na TI corporativa tradicional.
Especialistas reunidos no ITAD Summit, em Las Vegas, alertaram que a indústria precisa se preparar agora para esse volume. Somente nos Estados Unidos existem mais de 3 mil data centers em operação e milhares de outros em desenvolvimento. Em maio de 2026, aproximadamente US$ 60 bilhões em capital privado foram investidos na construção dessas instalações, avanço de cerca de 20% sobre os US$ 48,2 bilhões registrados um ano antes.
A diferença está na velocidade de renovação dos ativos. Enquanto equipamentos eletrônicos convencionais podem permanecer em operação entre três e sete anos, dispositivos utilizados em data centers apresentam ciclos de substituição estimados em apenas 12 a 18 meses, segundo Mike DiPetrillo, CEO da Layer IQ Technologies. Isso significa que parte relevante da infraestrutura instalada hoje poderá chegar ao mercado de ITAD já nos próximos ciclos tecnológicos.
A inteligência artificial torna esse fluxo particularmente valioso. Servidores equipados com GPUs avançadas concentram componentes de alto custo e podem fazer com que um único rack ultrapasse US$ 1 milhão em valor, segundo Rob Alston, CEO da Guardian Data. A adoção de sistemas de refrigeração líquida e arquiteturas de maior densidade também aumenta a complexidade técnica do descomissionamento.
O resultado é uma mudança importante para o ITAD. Retirar servidores de um data center deixa de ser uma operação baseada apenas em logística, destruição segura de dados e reciclagem. Identificar rapidamente quais GPUs, processadores, placas, memórias e demais componentes ainda possuem demanda no mercado secundário passa a ter impacto direto sobre a rentabilidade da operação.
A velocidade será determinante. A rápida evolução da infraestrutura de IA significa que ativos de elevado valor podem sofrer desvalorização acelerada se permanecerem armazenados por muito tempo. Pamela Bains, CEO da Microcad Computer Corp., alertou durante o encontro que equipamentos ligados à IA devem encontrar compradores mais rapidamente do que ativos convencionais, mas que os operadores precisarão colocar esses produtos novamente no mercado com agilidade.
O cenário ganha uma camada adicional com a pressão sobre a cadeia global de memória. A construção de data centers contribuiu para uma forte disputa por capacidade produtiva, e os preços de DRAM aumentaram cerca de 400% desde o início de 2024, segundo dados do J.P. Morgan citados pela publicação. A mesma infraestrutura que hoje absorve componentes em escala crescente poderá, após seus ciclos de refresh, tornar-se uma fonte relevante desses equipamentos para mercados secundários.
Nesse ambiente, decidir corretamente entre recondicionar, revender, desmontar ou reciclar torna-se uma competência financeira, não apenas operacional. Um caso apresentado no ITAD Summit mostrou a dimensão desse impacto: um centro de devoluções que processava cerca de 600 mil unidades por ano conseguiu uma melhoria de oito dígitos no retorno financeiro após passar a avaliar os produtos antes do processamento, evitando que componentes valiosos fossem enviados para sucata e que materiais sem valor comercial fossem direcionados à revenda.
A própria infraestrutura física dos data centers também deve gerar oportunidades. Equipamentos maiores, densidades crescentes de GPUs e novas tecnologias de refrigeração exigirão reformas, relocação de ativos e adaptações das instalações, ampliando a demanda por empresas capazes de combinar descomissionamento, logística especializada e gestão do ciclo de vida dos equipamentos.
A expansão dos data centers, portanto, começa a redesenhar o perfil do ITAD. O setor que historicamente administrou notebooks, desktops e servidores corporativos passa a lidar com ativos mais caros, especializados e sujeitos a ciclos tecnológicos muito mais rápidos.
O investimento recorde em infraestrutura de IA está acontecendo agora. O desafio seguinte já pode ser antecipado: quando a primeira grande geração desses equipamentos for substituída, haverá um volume igualmente extraordinário de hardware procurando uma segunda aplicação, um novo comprador ou uma rota eficiente para recuperação de materiais. Para a cadeia de ITAD, essa próxima onda começa antes mesmo de os servidores atuais chegarem ao fim de seu primeiro ciclo de uso.

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