O Chile deu um passo pouco comum na cadeia latino-americana de resíduos eletrônicos: transformou conhecimento adquirido no trabalho em uma qualificação profissional formal.
A região de Coquimbo concedeu a primeira certificação do país no perfil ocupacional de Reciclador de Base de Resíduos de Aparelhos Elétricos e Eletrônicos, criado pelo ChileValora. O reconhecimento foi entregue a Pedro Álvarez, profissional que trabalha com coleta e comercialização de resíduos tecnológicos e possui experiência no setor desde 2004.
A notícia ganha importância em um momento no qual o Chile começa a elevar as exigências sobre a gestão desses equipamentos.
O país publicou neste ano o Decreto 22, que estabelece metas de coleta e valorização para pilhas e aparelhos elétricos e eletrônicos dentro da estrutura da Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor, conhecida como Lei REP. Com metas formais entrando na operação do mercado, cresce também a necessidade de profissionalizar quem trabalha entre a coleta e a destinação.
O novo perfil foi desenvolvido em 2025 pelo ChileValora em conjunto com o Ministério do Trabalho e teve a Câmara de Comércio de Santiago como proponente. A certificação considera competências em coleta, transporte, armazenamento, classificação, pré-tratamento e preparação para reutilização ou venda.
Esse último ponto é particularmente relevante.
Ao incluir preparação para reutilização e comercialização entre as competências reconhecidas, o modelo não limita o trabalho à desmontagem e reciclagem de materiais. Ele reconhece que parte dos equipamentos recebidos ainda pode ter valor funcional e seguir para um segundo ciclo.
É uma distinção importante para um mercado frequentemente tratado como se todo equipamento descartado fosse automaticamente lixo.
Um computador retirado de uma empresa, por exemplo, pode precisar apenas de diagnóstico, sanitização de dados, troca de componentes e atualização para retornar ao mercado. Outros equipamentos podem fornecer peças. Somente aquilo que não apresenta condições técnicas ou econômicas de recuperação deveria seguir diretamente para reciclagem.
A profissionalização dessa triagem pode influenciar diretamente a quantidade de valor capturada pela cadeia.
O ChileValora também destaca a segurança envolvida no processo. Equipamentos eletrônicos combinam baterias, placas, metais e outras substâncias que exigem procedimentos específicos. O crescimento do fluxo formal sem qualificação correspondente pode aumentar riscos operacionais, especialmente em etapas manuais de desmontagem e armazenamento.
Segundo a publicação que anunciou a certificação, o Chile gera aproximadamente 11 a 14 quilos de resíduos eletrônicos por habitante ao ano, colocando o país entre os maiores geradores per capita da América Latina.
Esse volume tende a tornar a mão de obra uma parte cada vez mais importante da infraestrutura circular.
Durante muitos anos, a discussão sobre resíduos eletrônicos na região esteve concentrada na instalação de pontos de coleta e na construção de plantas. À medida que os sistemas de responsabilidade estendida do produtor amadurecem, outros gargalos aparecem: capacidade de triagem, rastreabilidade, qualidade dos processos e disponibilidade de profissionais treinados.
O mercado brasileiro pode observar de perto essa experiência.
O Brasil já possui uma cadeia extensa de catadores, recicladores, operadores de logística reversa, empresas de recondicionamento e ITAD, mas a profissionalização não ocorre de maneira homogênea. Determinadas funções exigem conhecimento técnico significativo, enquanto boa parte do aprendizado ainda acontece informalmente dentro das empresas.
A existência de uma certificação nacional também pode aumentar a confiança entre diferentes elos da cadeia. Fabricantes e sistemas de logística reversa precisam demonstrar destinação adequada. Empresas de ITAD lidam com ativos contendo informações sensíveis. Compradores de equipamentos recuperados exigem padrões mínimos de qualidade.
Em todos esses casos, processos verificáveis tornam-se parte do valor comercial.
Há ainda uma dimensão social. Álvarez criou a empresa SIRAM, que segundo a reportagem gera trabalho para aproximadamente 40 famílias nas regiões de Coquimbo e Atacama, principalmente pessoas com deficiência. A formalização de competências pode permitir que atividades historicamente periféricas ao setor tecnológico sejam incorporadas a uma cadeia profissionalizada.
O Chile está, portanto, avançando em dois níveis simultaneamente: cria obrigações para que mais equipamentos retornem ao sistema e começa a estruturar as qualificações necessárias para tratar aquilo que será coletado.
O próximo desafio será transformar certificações individuais em capacidade operacional em escala. Se as metas da Lei REP aumentarem o volume formal de RAEE, recicladores precisarão não apenas de máquinas e instalações, mas também de equipes capazes de distinguir rapidamente o que pode ser reutilizado, recondicionado, desmontado ou encaminhado à recuperação de materiais.

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