Tecnologia Verde

Reciclagem de terras raras chega à escala comercial e amplia valor estratégico do lixo eletrônico

Photo by Jaron Quach

A recuperação de terras raras a partir de produtos descartados começa a deixar a fase experimental para ganhar escala industrial. A Cyclic Materials inaugurou em Mesa, no Arizona, sua primeira instalação comercial nos Estados Unidos dedicada à separação de ímãs permanentes presentes em equipamentos e componentes em fim de vida.

A planta foi projetada para processar até 25 mil toneladas métricas por ano, utilizando tecnologia automatizada para retirar ímãs de terras raras de materiais que anteriormente tinham baixo índice de recuperação. O Departamento de Comércio dos Estados Unidos relaciona a nova capacidade diretamente à demanda de setores como inteligência artificial, robótica, indústria automotiva, defesa e manufatura avançada.

O movimento é relevante porque muda a posição do lixo eletrônico na cadeia de matérias-primas. Equipamentos descartados deixam de ser observados apenas pelo valor tradicional de cobre, alumínio, ouro ou aço. Discos rígidos, motores e outros produtos contendo ímãs permanentes passam a ser tratados como fontes secundárias de elementos cuja disponibilidade se tornou uma questão de política industrial.

A Cyclic desenvolveu uma estrutura em que a unidade do Arizona realiza a separação dos ímãs, enquanto processos posteriores permitem recuperar terras raras que podem retornar à fabricação. A empresa levantou mais US$ 75 milhões em agosto para ampliar sua infraestrutura nos Estados Unidos, elevando para US$ 237 milhões o volume total de capital próprio captado.

Para transformar capacidade industrial em produção, entretanto, é necessário resolver um problema conhecido por recicladores: matéria-prima.

Uma planta com capacidade para dezenas de milhares de toneladas precisa receber continuamente produtos adequados. Por isso, a Cyclic firmou uma parceria com a ERI, uma das maiores empresas de reciclagem eletrônica e ITAD dos Estados Unidos. O acordo conecta a rede de coleta e pré-processamento da ERI às tecnologias de recuperação da Cyclic. Além das terras raras, cobre e alumínio também serão recuperados.

Esse tipo de integração aproxima duas indústrias que durante anos funcionaram de maneira relativamente separada. De um lado estão empresas de ITAD e recicladores responsáveis por captar equipamentos corporativos e pós-consumo. De outro, companhias especializadas em processamento mineral. A valorização de materiais críticos cria interesse econômico para conectar essas etapas.

A mudança pode repercutir na América Latina.

Brasil, México, Chile e outros mercados da região acumulam grandes volumes de equipamentos eletrônicos, enquanto fabricantes de tecnologia, montadoras e outras indústrias aumentam sua exposição às cadeias globais de minerais críticos. Isso abre espaço para um modelo em que o equipamento descartado é tratado como estoque de materiais já extraídos e incorporados à economia.

O desafio será organizar essa oferta. Grande parte dos resíduos eletrônicos latino-americanos ainda circula por canais informais ou permanece armazenada por consumidores e empresas. Sem coleta, rastreabilidade e triagem, mesmo tecnologias avançadas de recuperação mineral permanecem sem matéria-prima suficiente.

Ao mesmo tempo, recuperar minerais não deve significar antecipar o fim da vida útil dos produtos. Um computador ou smartphone em condições de uso normalmente preserva mais valor quando é reparado, recondicionado ou revendido. A reciclagem entra quando essas possibilidades deixam de ser técnica ou economicamente viáveis.

É justamente essa separação que pode elevar a sofisticação das operações de ITAD e e-scrap. Em vez de encaminhar equipamentos diretamente à trituração, operadores terão incentivo crescente para identificar peças, ímãs, placas e componentes com rotas específicas de recuperação.

No caso das terras raras, isso pode ser particularmente importante. A composição e o valor dos materiais são diferentes daqueles tradicionalmente priorizados por plantas de reciclagem eletrônica, exigindo processos próprios de separação.

A inauguração no Arizona mostra que essa etapa começa a ser financiada como infraestrutura industrial. A mineração urbana deixa, portanto, de representar apenas uma narrativa ambiental sobre evitar resíduos e passa a participar da estratégia de abastecimento de setores de alta tecnologia.

Para a América Latina, o movimento coloca uma nova questão sobre a mesa: além de exportar minerais extraídos do subsolo, quanto valor a região poderia capturar recuperando os materiais estratégicos que já circulam dentro de seus próprios equipamentos?

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