Negócios

Escassez de memória aumenta valor até de smartphones quebrados no mercado secundário

Um smartphone com tela danificada, bateria degradada ou sem condições econômicas de voltar inteiro ao mercado começa a representar mais valor para a cadeia de recondicionamento.

A pressão sobre a oferta global de memória, impulsionada pela demanda de infraestrutura de inteligência artificial, está aumentando o interesse por componentes recuperáveis de aparelhos usados. Dados do marketplace B2B B-Stock mostram valorização de dispositivos Apple e Samsung no segundo trimestre de 2026, inclusive em categorias tradicionalmente associadas a equipamentos de menor qualidade.

A mudança é importante porque amplia o conceito de valor residual.

No mercado de smartphones usados, um aparelho normalmente é classificado de acordo com condição estética e funcional. Os melhores podem retornar diretamente à revenda depois de testes e sanitização. Os intermediários passam por reparo. Os piores tendem a ser destinados à retirada de peças ou reciclagem.

Mas a classificação geral não significa que todos os componentes dentro do aparelho tenham o mesmo valor.

Um dispositivo enquadrado nas categorias inferiores porque sua bateria está degradada pode conter câmera, display, placa, alto-falantes, conectores e outros módulos perfeitamente reutilizáveis.

Com componentes novos mais caros ou difíceis de obter, desmontar esse aparelho passa a fazer mais sentido econômico.

No primeiro semestre, dispositivos de condição intermediária representaram 37,8% das vendas da B-Stock, superando os 31,6% registrados pela categoria de pior condição. A plataforma também identificou aumento dos preços de diferentes modelos usados.

O fenômeno não significa que fabricantes estejam começando a retirar chips de memória de celulares antigos para instalar diretamente em novos aparelhos. Compatibilidade, testes e confiabilidade ainda tornam esse processo complexo.

A consequência aparece principalmente no ecossistema de reparo.

Displays, câmeras, baterias, portas de carregamento, estruturas, alto-falantes, cabos e placas podem continuar comercialmente úteis depois que o aparelho completo deixa de ser competitivo.

Essa mudança influencia diretamente as empresas que compram smartphones em programas de trade-in.

Durante muito tempo, aceitar um aparelho muito danificado poderia significar assumir um equipamento com pouco ou nenhum valor de revenda. Quanto maior o preço das peças recuperáveis, mais amplo pode se tornar o universo de dispositivos que ainda justificam uma oferta.

Isso pode alterar também a margem das operações de refurbishment.

O preço de compra de um aparelho usado normalmente precisa considerar diagnóstico, peças, mão de obra, logística, garantia e preço provável de revenda. Se componentes retirados de unidades não recuperáveis passam a abastecer reparos internos, parte do custo de reposição pode ser reduzida.

Para a América Latina, o efeito pode ser ainda mais relevante.

Grande parte das peças utilizadas por oficinas e recondicionadores da região depende de cadeias internacionais. Oscilações cambiais, frete, tributos e disponibilidade global podem tornar uma peça nova relativamente cara em comparação ao valor do aparelho reparado.

Criar estoques a partir de dispositivos locais pode reduzir parte dessa dependência.

O movimento também mostra como IA e economia circular começam a se encontrar de uma maneira pouco óbvia. A expansão de data centers está absorvendo capacidade de memória e elevando preços em determinados segmentos. Essa pressão acaba aumentando o incentivo econômico para recuperar componentes existentes em produtos que já estão no mercado.

A sustentabilidade aparece como consequência, mas não necessariamente como motor principal.

Consumidores estão mantendo smartphones por períodos maiores e varejistas utilizam ofertas de trade-in para estimular a troca. Conforme esses aparelhos envelhecem, uma proporção maior chega ao mercado secundário com bateria degradada, danos estéticos ou necessidade de manutenção.

Isso cria uma cadeia cada vez mais segmentada.

O melhor aparelho pode ser vendido novamente sem grandes intervenções. Outro será recondicionado. Um terceiro funcionará como doador de peças. Somente aquilo que não tiver mais valor funcional seguirá definitivamente para recuperação de materiais.

Essa hierarquia é central para a economia do setor. Recuperar ouro, cobre ou outros materiais continua importante, mas desmontar um smartphone para obter matéria-prima normalmente destrói componentes que poderiam valer mais como peças.

A escassez de componentes torna essa diferença ainda mais evidente.

Para recondicionadores latino-americanos, a oportunidade estará em transformar triagem e diagnóstico em vantagem competitiva. Quanto melhor uma empresa consegue identificar o valor escondido dentro de equipamentos de baixa classificação, menor é a parcela do estoque que precisa ser tratada simplesmente como sucata.

EUA restringem exportação de minerais recuperados e colocam reciclagem no centro da segurança de suprimentos

Previous article

Sistema de reciclagem do Havaí esgota recursos antes do fim do ano e expõe risco no desenho de políticas EPR

Next article