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Sistema de reciclagem do Havaí esgota recursos antes do fim do ano e expõe risco no desenho de políticas EPR

O programa de responsabilidade estendida do produtor para eletrônicos do Havaí entrou no terceiro ano enfrentando um problema que serve de alerta para sistemas de logística reversa em outros mercados: os resíduos continuam chegando mesmo depois que o dinheiro destinado a processá-los termina.

A legislação local obriga fabricantes de eletrônicos a financiar programas de reciclagem gratuitos para consumidores. As empresas também precisam se registrar e pagar taxas para comercializar seus produtos no estado.

Nos primeiros anos, o modelo aumentou os volumes coletados. Em 2024, aproximadamente 4,75 milhões de libras de eletrônicos foram recuperadas. O volume subiu 13,3% no ano seguinte, para 5,49 milhões de libras. Para 2026, a meta publicada chegou a 6,41 milhões de libras.

O problema apareceu antes do encerramento do ano.

Operadores afirmam que o limite de reembolso disponível para 2026 foi atingido com meses ainda restantes no calendário. Sem acompanhamento em tempo real suficientemente claro, alguns coletores dizem ter descoberto a situação apenas depois de continuar recebendo equipamentos.

O fluxo de resíduos, naturalmente, não parou.

Empresas passaram então a enfrentar alternativas pouco atraentes: armazenar material, assumir os custos de transporte e processamento, cobrar por serviços antes financiados pelo sistema ou limitar determinadas coletas.

No Havaí, o problema é agravado pela geografia. Grande parte do material precisa viajar milhares de quilômetros para chegar a processadores no continente norte-americano ou em outros países.

Um contêiner enviado ao território continental dos Estados Unidos pode custar cerca de US$ 6 mil apenas em transporte, sem contar taxas de reciclagem adicionais, segundo um dos operadores entrevistados.

As consequências chegaram ao emprego. Empresas envolvidas no sistema relataram cortes de pessoal e possibilidade de novas reduções enquanto continuam arcando com custos de galpão, seguro, equipamentos e armazenamento.

A situação mostra uma fragilidade recorrente dos sistemas de EPR.

Estabelecer que fabricantes são responsáveis pelo financiamento não resolve sozinho a equação. A política também precisa definir como os recursos acompanham o volume efetivamente gerado, como operadores monitoram o progresso das metas e o que acontece quando o teto previsto é alcançado.

Caso contrário, o custo volta a aparecer justamente no ponto que a legislação pretendia proteger.

A experiência tem relevância para a América Latina, onde sistemas de responsabilidade estendida e logística reversa vêm avançando em países como Brasil e Chile.

Um dos desafios da região é conciliar metas regulatórias com mercados de eletrônicos que mudam rapidamente. O peso médio dos equipamentos diminui em algumas categorias, enquanto o número de dispositivos cresce. Smartphones têm pouco peso, mas exigem processos diferentes de televisores ou grandes eletrodomésticos.

Metas exclusivamente baseadas em toneladas podem, portanto, criar incentivos inadequados.

Um programa interessado apenas em atingir peso pode priorizar produtos pesados em vez de equipamentos menores com alto valor de componentes, presença de baterias ou maior risco ambiental.

A previsibilidade financeira também é essencial para empresas que precisam investir em instalações, trabalhadores e logística.

Coletores não conseguem contratar equipes ou ampliar plantas com segurança quando não sabem se o financiamento continuará disponível durante todo o ano.

O caso havaiano também reforça a importância da informação em tempo real. Sistemas modernos de logística reversa precisam saber não apenas quanto material foi coletado depois do fechamento do período, mas quanto falta para determinada meta enquanto a operação acontece.

Rastreabilidade, nesse contexto, deixa de ser apenas ferramenta de compliance.

Ela se torna um mecanismo financeiro.

Se fabricantes, entidades gestoras, recicladores e autoridades conseguem acompanhar continuamente volumes e custos, é possível ajustar recursos antes que o sistema pare de funcionar.

A lição é particularmente relevante para países latino-americanos que ainda estão aumentando suas taxas formais de coleta. Quanto mais bem-sucedido for um programa, maior poderá ser a quantidade de equipamentos retornando ao sistema.

Uma política mal dimensionada pode, paradoxalmente, enfrentar dificuldades exatamente porque conseguiu coletar mais.

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